Ser Brasileiro É um Jeito de Viver

Tem uma cena em um filme francês chamado Samba que não sai da minha cabeça. Foi há um tempo que eu vi, anos, para ser franca. Mas pelo que eu lembro de uma cena específica, são dois homens em um terraço, e um deles ouve que não é brasileiro e admite que vem de outro lugar. Aí o Samba, que é o personagem principal, fala uma coisa tipo: brasileiro tem vida fácil.

E eu não entendi direito. Então eu perguntei para o meu marido o que ele achava que aquilo queria dizer, e ele me explicou que brasileiro costuma ser bem recebido em qualquer lugar, porque as pessoas acham que a gente é simpático. Olha, eu nunca tinha pensado nisso desse jeito. Mas aí fiquei pensando: quem é que pode ser brasileiro, afinal?

Porque o Brasil é tão misturado que a gente parece todo mundo e ninguém ao mesmo tempo, né? Tem comunidade libanesa grande, japonesa, italiana, alemã. A minha família mesmo tem raiz espalhada pela Europa inteira, e o meu pai nasceu no Uruguai e é brasileiro de verdade, tão brasileiro quanto qualquer pessoa que eu conheço.

Aliás, a gente nem fala igual. A minha avó, por exemplo, era tão direta que o povo arregalava o olho perto dela. Pode falar uma coisa dessas? Vão prender a gente? Quando um médico perguntou o que tinha trazido ela ali, ela respondeu na lata, sem a menor intenção de fazer graça, só constatando um fato: “É mais fácil eu falar o que eu não tenho.”

Ela me ensinou a falar o que eu penso. Já a Laise, que tem ascendência japonesa e é tão brasileira quanto eu, cresceu em uma casa em que se falava baixo e ninguém fazia escândalo. Ou seja, são duas brasileiras criadas em volumes completamente diferentes, e nenhuma das duas precisa virar a outra para pertencer.

E nada disso cabe em uma caixinha. Um dia eu perguntei para a minha mãe o que era ser brasileiro, e ela respondeu na hora: comer feijoada. Só que eu não como feijoada há anos. Aí ou a minha mãe tem uma definição super rígida de identidade nacional, ou eu sou uma brasileira fake há anos, e eu prefiro não descobrir qual das duas.

Então, o que faz a gente ser brasileiro? Eu acho que vai além de onde a gente nasceu. Para mim, aparece no jeito de viver: acolher antes de conhecer a pessoa, achar alguma coisa boa em um dia difícil, abrir espaço para quem chega, improvisar quando não tem manual, o famoso jeitinho, e deixar o ritmo passar pelo corpo em vez de resistir a ele.

Olha, eu não estou dizendo que essas qualidades são só dos brasileiros, nem que todo brasileiro vive assim, e quem não vive assim não é menos brasileiro por isso. Mas essas são as partes do Brasil que eu reconheço e escolho levar comigo. É uma prática, e não uma personalidade que eu preciso interpretar. É isso que eu quero dizer quando falo que ser brasileiro é um jeito de viver.

Foto do andifotos_

Foto do @andifotos_

Mas eu não quero deixar essa história mais bonita do que ela é. O Brasil ser misturado não quer dizer que todo mundo seja tratado do mesmo jeito. Eu cresci em um lugar onde ser diferente parecia normal, e isso me escondeu por muito tempo o quanto algumas pessoas são tratadas pior por causa disso. Eu aprendi isso melhor quando uma amiga me contou que não conseguia alugar um apartamento por ser negra, uma história que eu conto em What Good Intentions Do Not Buy You (post em inglês).

E a ideia de que brasileiro é bem recebido em qualquer lugar também não é uma garantia. Eu fui bem recebida em muitos lugares, mas um gerente na Austrália me disse, quando eu trabalhava de barista, que o pessoal de lá não gostava de imigrante (essa história está aqui, em inglês). No meu caso ele estava errado, só que o fato de ele pensar isso mostra que ser bem-vindo depende de quem está olhando.

Voltando ao filme: o Wilson, o personagem, é um argelino na França que se passa por brasileiro. Eu não sei todos os motivos que o filme dá para ele, mas aquilo me fez perceber que a imagem do brasileiro descomplicado pode abrir porta e, ao mesmo tempo, já vir com a expectativa de quem a gente deveria ser. E isso é um scorecard herdado (glossário em inglês), ou uma régua herdada: uma lista de quem a gente deveria ser, escrita por outras pessoas.

O que me interessa mesmo é a vida por trás da imagem: o acolhimento, o improviso, a vontade de abrir espaço. Essas coisas não são só de quem nasceu no Brasil. Dá para aprender, praticar e levar para outros lugares.

Eu gosto de imaginar alguém na cidade mais fria da Rússia, no meio do inverno, decidindo viver assim por causa do que isso abre na vida. Porque você não precisa de passaporte brasileiro para fazer alguém se sentir bem-vindo, achar um motivo para rir em um dia difícil ou dar um jeito com o que tem.

O passaporte conta, sim, só que ele não é a história toda.

E tem uma expressão no Brasil para quando chega visita de surpresa: põe mais água no feijão. A gente estica o que tem e abre espaço.

Bom, é isso: qualquer pessoa pode viver à brasileira, e tudo o que precisa é querer. Se você quiser, bate na porta, que a gente sempre pode pôr mais água no feijão. 💛

Jessica Gabrielzyk

Se você ainda está tentando entender qual Brasil você carrega e qual você passa adiante, eu escrevi sobre isso em I Promise No More Spoilers. But Gaia Got Me (post em inglês).

Se você está criando filhos longe de onde você veio e se perguntando o que está passando para eles, foi pensando nisso que eu escrevi o Parenting Unpacked. As primeiras quarenta páginas são gratuitas.

Qual é o jeito de viver que você carrega e que não cabe em um passaporte, e onde você aprendeu? Me conta nos comentários abaixo.

Jessica Gabrielzyk

Jessica Gabrielzyk escreve sobre os momentos bagunçados, mágicos e muitas vezes mal compreendidos da vida no exterior — desde dar à luz em um hospital estrangeiro até ajudar crianças pequenas a explorarem novas culturas com lápis de cor na mão. Nascida no Brasil, ela já morou em três continentes, criou filhos em três idiomas e hoje vive na Suíça com o marido, o filho e uma cachorra que tem mais carimbos no passaporte do que muitos adultos.

Seus livros, incluindo Maternidade no Exterior, Parenting Unpacked e My First American Coloring Book, são sinceros, acolhedores e baseados em experiências globais reais. É membro orgulhosa da Sociedade para Educação, Treinamento e Pesquisa Intercultural (SIETAR) e acredita que contar histórias é a única linguagem que realmente atravessa fronteiras.

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