O que A Odisseia e um Diplomata Suíço Têm em Comum?

Não, não é a Zendaya como protagonista. Embora seria incrível.

Este texto é um follow-up do meu post anterior em inglês sobre a minha mentalidade ocidental e a questão de saber se o modelo de mentor único é um conceito ocidental. Você pode clicar aqui para ler na íntegra, ou a versão curta é esta: eu não tenho um mentor, fiquei me perguntando se o meu desconforto com o modelo tradicional era cultural, e Rhoda Bangerter disse algo tão bom que a comparei a uma participante do MasterChef.

Então Rhoda levou essa questão para o marido que é um diplomata suíço. Ele tinha opiniões.

Aqui está o que ela me mandou:

"Meu marido acabou de complicar tudo. Perguntei a ele se achava que ter um mentor era um conceito ocidental. Ele disse que não: há mestres no Japão, gurus, filósofos gregos com discípulos. Sem eu pedir, ele ainda disse que o que poderia ser um conceito ocidental era a possibilidade de ter vários mentores ao mesmo tempo 😂 O que me veio à cabeça é que talvez muitos mentores de negócios estejam vendendo seus serviços por milhares como coaches, ou que para ter um, eu precisaria estar numa estrutura como uma universidade ou uma empresa.

A conversa continua.

Ele diz que talvez o que esperamos de um guru ou mentor seja diferente do que foi ao longo da história, ou seja, uma pessoa que te daria as ferramentas para te tornares mestre você mesma. E você teria uma relação mestre e discípulo. Esperamos ajuda ao longo do caminho. Então depende de qual estamos procurando. Ele diz que pode ser uma sucessão de pessoas, uma depois da outra. Aparentemente, Mentor também era potencialmente uma figura histórica. Que interessante!"

Ele tem razão, e eu me retrato publicamente porque é esse o tipo de blog que este é.

A ideia de aprender com um mestre certamente não é uma invenção ocidental. O Japão tem longas tradições de relações mestre e aprendiz. A Índia tem seus gurus. A Grécia Antiga tinha filósofos e seus alunos. Em todas as culturas e ao longo da história, o conhecimento muitas vezes foi transmitido de uma geração para a seguinte através de relações próximas entre professores e aprendizes.

Mas então ele disse algo que resgatou parte do meu argumento enquanto desmontava o resto.

Ele se perguntou se o que parece distintamente moderno não é ter um único mentor, mas construir intencionalmente uma rede de mentores, cada um contribuindo com algo diferente. Fui procurar pesquisas para confirmar essa ideia e, curiosamente, não encontrei nenhuma evidência de que essa abordagem seja exclusivamente ocidental. Psicólogos organizacionais há muito argumentam que as pessoas se beneficiam de redes de desenvolvimento e de múltiplos mentores, mas não enquadram isso como um fenômeno exclusivamente ocidental.

Às vezes, a resposta mais interessante é simplesmente: não sabemos.

E então ele continuou, porque aparentemente o diplomata não para quando começa, o que eu respeito enormemente.

Ele sugeriu que o que esperamos de um mentor hoje pode simplesmente ser diferente do que as gerações anteriores esperavam de um mestre. Historicamente, muitas relações de mentoria focavam em transmitir conhecimento, habilidades ou um ofício para que o aluno pudesse eventualmente se tornar mestre também. Hoje, muitos de nós buscamos algo mais amplo: orientação, encorajamento, perspectiva e ajuda para navegar carreiras e vida. Se essa mudança reflete transformações no trabalho, na educação, nas organizações ou na cultura, ainda é uma questão em aberto, mas certamente é uma questão interessante.

Então ele mencionou que Mentor era potencialmente uma figura histórica.

Isso me mandou para uma toca de coelho.

Até onde os historiadores sabem, Mentor não é uma pessoa histórica confirmada, mas um personagem fictício na Odisseia de Homero. O que me fascinou não foi se ele existiu, mas como esse personagem acabou nos dando uma das palavras mais usadas no desenvolvimento profissional hoje.

Mentor aparece na Odisseia de Homero como o amigo de confiança de Ulisses, que o deixa cuidar do seu filho Telêmaco enquanto ele está lutando na Guerra de Tróia. Embora Mentor seja um personagem dentro da história, algumas das orientações mais memoráveis do poema para Telêmaco vêm na verdade de Atena, a deusa da sabedoria, que se disfarça repetidamente de Mentor.

Fica ainda melhor.

O significado moderno da palavra mentor, o conselheiro de confiança que orienta, encoraja e desenvolve outra pessoa, deve muito mais ao escritor francês François Fénelon do que a Homero. Em 1699 Fénelon publicou Les Aventures de Télémaque, reimaginando Mentor como o sábio conselheiro que educa o futuro rei. O livro tornou-se uma das obras mais lidas na Europa do século XVIII e ajudou a transformar um personagem homérico relativamente secundário no modelo do que chamamos hoje de mentor.

É, eu vim a pensar, sua própria forma de migração de identidade. A palavra viajou ao longo de três mil anos, mudou de significado ao longo do caminho, e chegou ao desenvolvimento profissional moderno vestindo a fantasia da sabedoria antiga enquanto carregava o DNA de um romance francês do século XVII.

Então para resumir o que um diplomata suíço realizou através de uma conversa espontânea em casa: aprender com um mestre é antigo e transcultural, a ideia moderna de mentoria evoluiu ao longo dos séculos, pesquisadores organizacionais há muito argumentam que as pessoas se beneficiam de redes de relações de desenvolvimento em vez de depender de um único mentor, e um dos mentores mais famosos da história foi, durante alguns dos momentos mais importantes da história, na verdade a deusa Atena disfarçada de Mentor.

Acho tudo isso enormemente reconfortante. A mentoria nunca foi uma ideia fixa. Mudou entre culturas, séculos e contextos, e aparentemente também entre salas de estar na Suíça.

Vou continuar construindo minha própria rede de pessoas que alimentam o meu cérebro e desafiam o meu pensamento.

Rhoda e o marido dela são sempre bem-vindos.

Jessica Gabrielzyk

Jessica Gabrielzyk

Jessica Gabrielzyk escreve sobre os momentos bagunçados, mágicos e muitas vezes mal compreendidos da vida no exterior — desde dar à luz em um hospital estrangeiro até ajudar crianças pequenas a explorarem novas culturas com lápis de cor na mão. Nascida no Brasil, ela já morou em três continentes, criou filhos em três idiomas e hoje vive na Suíça com o marido, o filho e uma cachorra que tem mais carimbos no passaporte do que muitos adultos.

Seus livros, incluindo Maternidade no Exterior, Parenting Unpacked e My First American Coloring Book, são sinceros, acolhedores e baseados em experiências globais reais. É membro orgulhosa da Sociedade para Educação, Treinamento e Pesquisa Intercultural (SIETAR) e acredita que contar histórias é a única linguagem que realmente atravessa fronteiras.

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