Aquela Careta que Eu Nunca Esqueci.

Meu Deus, eu ainda consigo visualizar.

Me mudei para a Austrália com pouco mais de vinte anos e mal tinha coragem de abrir a boca. Quando eu falava, as pessoas tentavam entender meu sotaque e não conseguiam bem, e não acho que era doloroso me ouvir exatamente, era mais como elas estavam tentando muito. Os lábios torciam enquanto os olhos se fechavam, como se isso fosse me dar legendas magicamente.

Fui aprendendo, claro, só que não na velocidade que a maioria parecia esperar. As pessoas falavam assim: "mas você já está lá há três meses, deve estar fluente agora." Huuum. Ainda não. Eu estava aprendendo um idioma, não aprendendo mágica.

Aí fui para a universidade e olha, pode confiar que foi pura atuação de ouro. Consegui minha nota no IELTS com o que só posso descrever como um milagre somado ao fato de ser brasileira e fazer piada sob pressão. Não tirei nota incrível em nenhuma das seções exceto em fala, ironicamente. Meu inglês não era lá grandes coisas, mas fiz o examinador rir e estou assumindo que foi assim que consegui nota suficiente para entrar na universidade.

Mas isso me pegou de jeito, muitas vezes e das mais variadas formas. A maior que ainda lembro foi no terceiro ano mais ou menos, quando tive que apresentar para mais de cem alunos. Era boa em apresentações e meu inglês estava bom? Talvez agora sim, mas definitivamente não naquela época. Lembro de um aluno local com um coração enorme me ajudando com a preparação, ficando comigo durante toda a ansiedade disso sem me fazer sentir um problema. Anos depois o encontrei de novo e ele disse que meu inglês tinha melhorado muito, o que me fez sentir um pouquinho melhor. Mas eu não era nativa e soar como nativa era o que tinha sido gravado na minha cabeça desde que embarquei no avião, porque fica ouvindo que você não vai pertencer até soar como eles e eu levei isso muito a sério.

Anos depois tirei minha cidadania. O torcer dos lábios não ligou para a minha cidadania.

Consegui um emprego em marketing e tinha um medo danado de atender o telefone, suava demais toda vez. Mas aí decidi viajar um pouco e trabalhar de forma remota, e foi quando as coisas mudaram de verdade. Sem linguagem corporal para ler, sem rosto para monitorar em busca de sinais do torcer dos lábios chegando, só um telefone, uma voz e o teto que eu precisava alcançar todos os dias.

E aí caiu a ficha.

Quando não tem como ler um rosto ou suavizar um mal-entendido com um sorriso, você aprende a carregar a conversa inteira sozinha, desacelera, articula, para de passar correndo pelos sons difíceis e começa a sentar dentro deles tempo suficiente para acertar. Meu inglês melhorou mais nesses meses do que em anos estando na mesma sala que as pessoas, e em algum momento nesse processo cheguei a algo que não esperava.

Author Jessica Gabrielzyk in Australia

Baby me em Brisbane.

O sotaque nunca foi o problema. A clareza era.

São duas coisas completamente diferentes e confundi-las custa anos. O sotaque é a música específica de onde você vem, e a clareza é garantir que essa música chegue até a outra pessoa. Você pode ter sotaque forte e falar com clareza total, e pode ter sotaque nativo e murmurizar em toda conversa. As duas coisas não são a mesma coisa, e o torcer dos lábios, bem-intencionado que era, tinha me ensinado a misturá-las.

Não misturo mais.

Tem mais uma coisa, porém, que quero ser honesta. Eu odiava ser corrigida, genuinamente odiava, e olhando para trás acho que era por causa de o quanto eu queria pertencer, porque cada correção parecia um marcador claro na minha cabeça de que eu não era uma deles. Odiava tanto que demorei para caramba para falar inglês na frente do meu agora marido, estava protegendo algo, a versão de mim que talvez parecesse saber o que estava fazendo se ninguém testasse muito. Isso pode ou não estar acontecendo com o francês agora, de forma inconsciente, mas eu sei qual é o outro lado e só preciso passar por isso.

Isso é o marcador herdado fazendo seu pior trabalho, um padrão absorvido antes de você ser velha o suficiente para escolhê-lo, que te mede contra uma versão de fluência que nunca foi seu idioma nativo e nunca será, e que te diz que o torcer dos lábios significa algo verdadeiro sobre você em vez de algo verdadeiro sobre o momento.

Esses olhares e torceres de lábios, mesmo amigáveis e inconscientes, ditaram como eu me sentia sobre o lugar e sobre mim mesma por anos. Não dizem nada sobre mim agora. Sou chata, orgulhosa e não paro de falar.

O torcer dos lábios nunca foi sobre meu sotaque, foi sobre um momento de estranheza na outra pessoa, e essa é a experiência dela, não meu problema para resolver. Só precisei de uns dez anos e uma pandemia para entender isso.

Jessica Gabrielzyk

Flat lay of publications by author Jessica Gabrielzyk, including My First American Coloring Book, Maternidade no Exterior, and Parenting Unpacked: Parenting Through The Loss of Self, displayed on a light wooden surface.

O marcador herdado é um dos conceitos centrais do Parenting Unpacked, onde aparece num contexto diferente mas com o mesmo mecanismo. As crenças que absorvemos antes de sermos velhos o suficiente para questioná-las duram mais quando ninguém as nomeia.

Se você está criando um filho que está chegando a algum lugar novo e vai precisar navegar um mundo que ainda não sabe o nome dele, o My First American Coloring Book dá a ele o vocabulário visual antes que o mundo espere que ele já tenha.

E se você é a mãe ou o pai que segurou tudo em todos os países e em algum momento no meio disso parou de se reconhecer, o Maternity Abroad e o Parenting Unpacked foram escritos exatamente para isso. Disponíveis agora na Amazon em todo o mundo. 💛

Jessica Gabrielzyk

Jessica Gabrielzyk escreve sobre os momentos bagunçados, mágicos e muitas vezes mal compreendidos da vida no exterior — desde dar à luz em um hospital estrangeiro até ajudar crianças pequenas a explorarem novas culturas com lápis de cor na mão. Nascida no Brasil, ela já morou em três continentes, criou filhos em três idiomas e hoje vive na Suíça com o marido, o filho e uma cachorra que tem mais carimbos no passaporte do que muitos adultos.

Seus livros, incluindo Maternidade no Exterior, Parenting Unpacked e My First American Coloring Book, são sinceros, acolhedores e baseados em experiências globais reais. É membro orgulhosa da Sociedade para Educação, Treinamento e Pesquisa Intercultural (SIETAR) e acredita que contar histórias é a única linguagem que realmente atravessa fronteiras.

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Eu Fiquei Pistola.